O SENSO COMUM E A CIÊNCIA (I)
“A ciência nada mais é que o senso comum refinado e
disciplinado.” G. Myrdal
A.1 O que é que as pessoas comuns pensam quando as
palavras ciência ou cientista são mencionadas? Faça você mesmo um exercício.
Feche os olhos e veja que imagens vêm à sua mente.
A.2 As imagens mais comuns são as seguintes:
• o gênio louco, que inventa coisas fantásticas;
• o tipo excêntrico, ex-cêntrico, fora do centro,
manso, distraído;
• o indivíduo que pensa o tempo todo sobre fórmulas
incompreensíveis ao comum dos mortais;
• alguém que fala com autoridade, que sabe sobre que
está falando, a quem os outros devem ouvir e ... obedecer.
A.3 Veja as imagens da ciência e do cientista que
aparecem na televisão. Os agentes de propaganda não são bobos. Se eles usam
tais imagens é porque eles sabem que elas são eficientes para desencadear
decisões e comportamentos. É o que foi dito antes: cientista tem autoridade,
sabe sobre o que está falando e os outros devem ouvi-lo e obedecê-lo. Daí que
imagem de ciência e cientista pode e é usada para ajudar a vender cigarro.
Veja, por exemplo, os novos tipos de cigarro, produzidos cientificamente. E os
laboratórios, microscópios e cientistas de aventais imaculadamente brancos
enchem os olhos e a cabeça dos telespectadores. E há cientistas que anunciam
pasta de dente, remédios para caspa, varizes, e assim por diante.
A.4 O cientista virou um mito. E todo mito é perigoso,
porque ele induz o comportamento e inibe o pensamento. Este é um dos resultados
engraçados (e trágicos) da ciência. Se existe uma classe especializada em
pensar de maneira correta (os cientistas), os outros indivíduos são liberados
da obrigação de pensar e podem simplesmente fazer o que os cientistas mandam.
Quando o médico lhe dá uma receita você faz perguntas? Sabe como os
medicamentos funcionam? Será que você se pergunta se o médico sabe como os
medicamentos funcionam? Ele manda, a gente compra e toma. Não pensamos.
Obedecemos. Não precisamos pensar, porque acreditamos que há indivíduos especializados
e competentes em pensar. Pagamos para que ele pense por nós. E depois ainda
dizem por aí que vivemos em uma civilização científica... O que eu disse dos
médicos você pode aplicar a tudo. Os economistas tomam decisões e temos de
obedecer. Os engenheiros e urbanistas dizem como devem ser as nossas cidades, e
assim acontece. Dizem que o álcool será a solução para que nossos automóveis
continuem a trafegar, e a agricultura se altera para que a palavra dos técnicos
se cumpra. Afinal de contas, para que serve a nossa cabeça? Ainda podemos
pensar? Adianta pensar?
B.1 Antes de mais nada é necessário acabar com o mito
de que o cientista é uma pessoa que pensa melhor do que as outras. O fato de
uma pessoa ser muito boa para jogar xadrez não significa que ela seja mais
inteligente do que os não-jogadores. Você pode ser um especialista em resolver
quebra-cabeças. Isto não o torna mais capacitado na arte de pensar. Tocar piano
(como tocar qualquer instrumento) é extremamente complicado. O pianista tem de
dominar uma série de técnicas distintas – oitavas, sextas, terças, trinados,
legatos, staccatos – e coordená-las, para que a execução ocorra de forma
integrada e equilibrada. Imagine um pianista que resolva especializar-se (note
bem esta palavra, um dos semideuses, mitos, ídolos da ciência!) na técnica dos
trinados apenas. O que vai acontecer é que ele será capaz de fazer trinados
como ninguém – só que ele não será capaz de executar nenhuma música. Cientistas
são como pianistas que resolveram especializar-se numa técnica só. Imagine as
várias divisões da ciência – física, química, biologia, psicologia, sociologia
– como técnicas especializadas. No início pensava-se que tais especializações
produziriam, miraculosamente, uma sinfonia. Isto não ocorreu. O que ocorre, frequentemente
é que cada músico é surdo para o que os outros estão tocando. Físicos não
entendem os sociólogos, que não sabem traduzir as afirmações dos biólogos, que
por sua vez não compreendem a linguagem da economia, e assim por diante.
A especialização pode transformar-se numa perigosa
fraqueza. Um animal que só desenvolvesse e especializasse os olhos se tornaria
um gênio no mundo das cores e das formas, mas se tornaria incapaz de perceber o
mundo dos sons e dos odores. E isto pode ser fatal para a sobrevivência. O que
eu desejo que você entenda é o seguinte: a ciência é uma especialização, um
refinamento de potenciais comuns a todos. Quem usa um telescópio ou um
microscópio vê coisas que não poderiam ser vistas a olho nu.
Mas eles nada mais são que extensões do olho. Não são
órgãos novos. São melhoramentos na capacidade de ver, comum a quase todas as
pessoas. Um instrumento que fosse a melhoria de um sentido que não temos seria
totalmente inútil, da mesma forma como telescópios e microscópios são inúteis
para cegos, e pianos e violinos são inúteis para surdos. A ciência não é um
órgão novo de conhecimento. A ciência é a hipertrofia de capacidades que todos
têm. Isto pode ser bom, mas pode ser muito perigoso. Quanto maior a visão em
profundidade, menor a visão em extensão. A tendência da especialização é
conhecer cada vez mais de cada vez menos.
C.1 A aprendizagem da ciência é um processo de
desenvolvimento progressivo do senso comum. Só podemos ensinar e aprender
partindo do senso comum de que o aprendiz dispõe. A aprendizagem consiste na
manutenção e modificação de capacidades ou habilidades já possuídas pelo
aprendiz. Por exemplo, na ocasião em que uma pessoa que está aprendendo a jogar
tênis tem a força física para segurar a raquete, ela já desenvolveu a
coordenação inata dos olhos com a mão, a ponto de ser capaz de bater na bola
com a raquete. Na verdade, com a prática ela aprende a bater melhor na bola, .
. Mas bater na bola com a raquete não é parte do aprendizado do jogo de tênis.
Trata-se, ao contrário, de uma habilidade que o jogador possui antes de sua
primeira lição e que é modificada na medida em que ela aprende o jogo. É o
refinamento de uma habilidade já possuída pela pessoa. (David A. Dushki (org.).
Psychology Today –
An Introduction. p. 65).
C.2 O que é senso comum? Esta expressão não foi
inventada pelas pessoas de senso comum. Creio que
elas nunca se preocuparam em se definir. Um negro, em
sua pátria de origem, não se definiria como pessoa “de cor”. Evidentemente.
Esta expressão foi criada para os negros pelos brancos. Da mesma forma a
expressão “senso comum” foi criada por pessoas que se julgam acima do senso
comum, como uma forma de se diferenciarem das pessoas que, segundo seu
critério, são intelectualmente inferiores. Quando um cientista se refere ao
senso comum, ele está, obviamente, pensando nas pessoas que não passaram por um
treinamento científico. Vamos pensar sobre uma destas pessoas.
C.3 Ela é uma dona-de-casa. Pega o dinheiro e vai à
feira. Não se formou em coisa alguma. Quando tem de preencher formulários,
diante da informação “profissão” ela coloca “prendas domésticas” ou “do lar”.
Uma pessoa comum como milhares de outras. Vamos pensar em como ela funciona, lá
na feira, de barraca em barraca. Seu senso comum trabalha com problemas
econômicos: como adequar os recursos de que dispõe, em dinheiro, às
necessidades de sua família, em comida. E para isto ela tem de processar uma
série de informações. Os alimentos oferecidos são classificados em
indispensáveis, desejáveis e supérfluos. Os preços são comparados. A estação
dos produtos é verificada: produtos fora de estação são mais caros. Seu senso
econômico, por sua vez, está acoplado a outras ciências. Ciências humanas, por
exemplo. Ela sabe que alimentos não são apenas alimentos. Sem nunca haver lido
Veblen ou Lévi-Strauss, ela sabe do valor simbólico dos alimentos. Uma refeição
é uma dádiva da dona-de-casa, um presente. Com a refeição ela diz algo.
Oferecer chouriço para um marido de religião adventista, ou feijoada para uma
sogra que tem úlceras, é romper claramente com uma política de coexistência
pacífica. A escolha de alimentos, assim, não é regulada apenas por fatores
econômicos, mas por fatores simbólicos, sociais e políticos. Além disto, a
economia e a política devem fazer lugar para o estético: o gostoso, o cheiroso,
o bonito. E para o dietético. Assim, ela ajunta o bom para comprar, com o bom
para dar, com o bom para ver, cheirar e comer, com o bom para viver. É senso
comum? É. A dona-de-casa não trabalha com aqueles instrumentos que a ciência
definiu como científicos. É comportamento ingênuo, simplista, pouco
inteligente? De forma alguma. Sem o saber, ela se comporta como uma pianista,
em oposição ao especialista em trinados. É provável que uma mulher formada em
dietética, e em decorrência de sua (de)formação, em breve se veja frente a
problemas na casa, em virtude de sua ignorância do caráter simbólico e político
da comida. Especialista em trinados.
C.4 O que é o senso comum? Prefiro não definir. Talvez
simplesmente dizer que senso comum é aquilo que não é ciência e isto inclui
todas as receitas para o dia-a-dia, bem como os ideais e esperanças que
constituem a capa do livro de receitas. E a ciência? Não é uma forma de
conhecimento diferente do senso comum. Não é um novo órgão. Apenas uma
especialização de certos órgãos e um controle disciplinado do seu uso.
Você é capaz de visualizar imagens? Então pense no
senso comum como as pessoas comuns. E a ciência? Tome esta pessoa comum e
hipertrofie um dos seus órgãos, atrofiando os outros. Olhos enormes, nariz e
ouvidos diminutos. A ciência é uma metamorfose do senso comum. Sem ele, ela não
pode existir. E esta é a razão por que não existe nela nada de misterioso ou
extraordinário.
D.1 Como funciona o senso comum? Se a gente compreender
o senso comum poderá entender a ciência com mais facilidade. E nada melhor para
se entender o senso comum que brincar com alguns problemas.
E.1 Você está guiando um automóvel e repentinamente
ele pára. Mas o que nos interessa é saber como funcionaria o seu senso comum. O
que é que você faria com as mãos e com o cérebro? Que pensamentos orientariam
as suas mãos? Descreva o seu raciocínio em uma folha de papel.
F.1 Em sua casa você gasta normalmente um certo número
de metros cúbicos de água. De repente você recebe uma conta enorme,
correspondente ao dobro do que é normal. Como é que você procederia para
resolver o problema, passo a passo?
Extraído do livro: Filosofia da Ciência - Introdução ao jogo e suas regras, Rubem Alves, Editora Brasilliense.